“Quero ser dev”: migrando para a tecnologia

A tecnologia tem se mostrado um campo fértil com vagas atrativas e muitas possibilidades. Durante a pandemia, acompanhamos o número de oportunidades no setor crescerem – já que tudo passou a ser online. Aqui na Firma Preta, toda semana, anunciamos pelo menos uma vaga na área.

Migrar para a tecnologia é um pensamento que passa pela cabeça de muita gente. Porém, são muitos os desafios. Na área, há apenas 2% de mulheres negras, no Brasil nem temos esse dado. Mesmo com tudo isso, Simara Conceição resolveu que seria desenvolvedora, migrou de área há dois anos. Hoje, ela compartilha seu conhecimento e fala do que viveu no seu canal no Youtube “Quero ser dev”.

Conversamos com ela sobre a sua decisão de migrar e de compartilhar seu conhecimento na área.

1-  Qual era a sua área antes e por que resolveu mudar?

Eu venho de uma trajetória no marketing. Antes de mudar de carreira eu tinha uma pequena agência digital que atendia em sua maioria afroempreendedores, onde já tive como cliente o Movimento Black Money, hub para inserção da comunidade preta na era digital, DiasporaBlack, uma plataforma que oferece cursos online e experiências turísticas presenciais que valorizam a cultura negra, entre outros.

Minha área de atuação era com um marketing mais técnico onde  eu criava estratégias digitais para alavancar os negócios que atendia, por isso eu precisava estar atenta a alguns conteúdos de tecnologia como SEO, monitoramento de dados, uso efetivo de plataformas de ads e de inbound marketing etc.

E movida por essa curiosodade/necessidade, em 2019, eu fiz parte da primeira turma do Afreektech, braço educacional do Movimento Black Money, onde no curso de marketing eu era mentora e no curso de programação para pessoas não programadoras eu era aluna. Foi ali que tive meu primeiro contato com o código.

Durante todo o ano de 2019 enquanto ainda atuava com a agência fiz uma série de cursos de programação, e quando o ano terminou eu me questionei se continuaria com a agência ou se iria embarcar de vez nessa aventura de migrar para área de desenvolvimento de software.

Na ocasião, eu preferi continuar com a agência como minha atividade principal e com os estudos de desenvolvimento nas horas não pagas. Mas daí, chegou a pandemia em março de 2020 e o mercado ficou muito assustado com as incertezas e mergulhamos numa grande crise no primeiro semestre do ano, ali com muita criatividade consegui gerar alguns resultados para os clientes.

Mas eram muitas incertezas, eu não tinha um plano de saúde, além disso empreender tendo começado do absoluto zero não é uma experiência glamourosa, era uma “eugência”, fazia de um tudo para no fim do mês bancar minhas contas.

Como minha entrada financeira havia diminuído também nesse período, eu decidi embarcar de vez na tecnologia onde eu poderia ter uma boa remuneração e bons benefícios(inclusive o plano de saúde) mesmo sendo iniciante.

Me organizei para passar um período apenas estudando e aplicando para vagas, e de outubro a dezembro de 2020 foi isso que eu fiz. Me dediquei 100% para virar o jogo da minha carreira e depois de mais de 15 entrevistas de emprego recebi o meu sim na Thoughtworks, uma empresa global de desenvolvimento de software que é uma super aliada em transformação social.

2 – Como foi seu caminho de migração e os maiores desafios dele?

Eu tenho a responsabilidade de não romantizar esse período de migração de carreira que é doloroso, revolucionário e que mexe com a gente demais. Eu acredito que no campo das soft skills, que são habilidades emocionais e de relacionamento, são onde mais encontramos desafios.

Na tecnologia, a gente precisa se adaptar rápido, precisa saber trabalhar em equipe, precisa aprender rápido, precisa lidar com o erro de uma forma diferente, entre outras coisas.

Aprender uma linguagem e aplicar lógica de programação, a gente estuda, treina, foca e testa até ganhar proficiência. Agora, mudar a forma de pensar e a forma de encarar a vida é um super desafio. Pessoalmente, meus maiores desafios foram emocionais, eu decidi mudar de carreira em plena pandemia, então, além do processo de me entender no mundo, eu precisava fazer isso no que anunciava ser o fim do mundo.

Eu aprendi a lidar com isso criando uma rotina que envolvia me alimentar bem, dormir bem, fazer terapia, me exercitar e dedicar boas horas do meu dia a estudar. Afinal, programar é algo que precisa de prática e longas horas na frente do computador, não é algo que acontece do dia pra noite. Principalmente, se você vem de uma área diferente. Por isso, eu entendi a importância de criar um ambiente adequado pra esse foco.

Dois anos depois, entendo que foi um período tenebroso que acentuou as desigualdades, mas esse período obrigou o mercado a se mover para o 100% digital ou quase isso, e dentro desse contexto de muita tristeza, algumas oportunidades surgiram. Eu criei e agarrei a minha e hoje consigo visualizar caminhos possíveis para mudanças de realidade na minha vida, na minha família e na minha comunidade.

3 – Por que resolveu criar o canal no YouTube?

Compartilhar minha jornada de migração de carreira na internet nasceu bem antes do canal “quero ser dev” no YouTube. Ainda em 2019, eu compartilhava nas minhas redes sociais fotos e vídeos contando dos cursos e eventos de tecnologia que eu participava em São Paulo. Eu mudei de cidade, inclusive por essas oportunidades.

E em abril de 2020, eu criei o podcast “Quero ser dev” que está disponível no Anchor e no Spotify. Eu queria contar minhas vivências ao entrar na área e também convidar outras mulheres diversas para contarem suas histórias.

Historicamente, a gente vem de um silenciamento de mulheres no mercado de tecnologia onde em dado momento grandes descobertas feitas por mulheres não tinham seu reconhecimento com nome e sobrenome.  É o caso da Ada Lovelace, que era cientista e mãe e foi a criadora do primeiro algoritmo, mas só foi reconhecida pelo seu feito quase 100 anos depois.

Mais recentemente, tivemos as engenheiras negras que trabalharam na Nasa com grandes feitos também: Mary Jackson, primeira engenheira negra da Nasa;  Katharine Johnson, Matemática, física e cientista espacial afro-americana ; Dorothy Vaughan, uma das únicas supervisoras negras da agência. Só depois de muito tempo elas tiveram reconhecimento e suas histórias foram contadas no filme “Estrelas Além do Tempo”, vale a pena conferir.

Então o podcast quero ser dev nasceu desse contexto de dar espaço e vez para ecoarmos nossas vozes enquanto mentes pensantes e produtoras de tecnologia da atualidade.

Já agora em 2022, eu decidi ir além da voz e colocar minha carinha preta no youtube estampando caminhos reais e possíveis para pessoas de grupos minorizados socialmente que desejem construir uma carreira na tecnologia. Num levantamento da Pretalab, foi identificado que mulheres negras representam apenas 2% em todo universo da engenharia e tecnologia nos EUA, no Brasil nem temos esse dados.

Então o projeto “Quero ser dev” nasce como uma continuidade do trabalho de Nina Silva, Nina da Hora, Kizzy Terra e de várias outras mulheres pretas que estão abrindo caminho para nós na tecnologia, na ciência, na engenharia e no mercado de trabalho.

É a minha ferramenta para colaborar com a construção de um futuro tecnológico com mais equidade. Pois, eu acredito que quando uma mulher preta aprende lógica, algoritmos e como criar soluções com linhas de código, ela aprende muito mais do que codar. Ela aprende como ter dignidade e autonomia real.

Eu tô vivendo essa transformação na minha carreira e eu só quero inspirar e ajudar o máximo possível de mulheres plurais a vivê-la também.

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